Conceitos da psicanálise


  • O sabor do Real

    Hoje cheguei na casa dos meus pais que estavam recebendo visitas. Uma tia havia trazido um doce que parecia um doce de leite aguado, no formato de uma goiabada cascão. O doce estava com as marcas do plástico da embalagem. (Simbólico). Resolvi comer um pedacinho bem pequeno. Peguei a faca e pensei: hum deve ser uma delícia. Minha tia veio de Goias, ela gosta muito da minha mãe, lá é cheio de doces gostosos, ao leite. Quem sabe foi até feito em casa ou é algum doce bem gostoso e conhecido da região, por isso ela o trouxe. (Imaginário). Quando coloquei o doce na boca, senti um sabor indecifrável. A textura também era bem diferente de tudo que já havia comido. Não era ruim, mas tampouco era bom. Era estranho, esquisito, não consegui associar o sabor a nada que eu já havia experimentado. Engoli esse doce nao ruim, não bom, estranho, gosto esquisito, textura estranha, e quando chegou no estômago me fez mal. Um leve enjôo. Com gosto de Real, sabor que não sabemos definir, nem explicar, mas que engolimos não sem um mal estar.

    Fernanda Sanches

    15 de maio de 2026

  • O que é o grande Outro?

    Dizem que o grande Outro é a mãe ou quem faz a função materna. Mas também dizem que o grande Outro são as instituições, escolas, etc.

    Sempre ouvi dizer que o grande Outro é a linguagem, o inconsciente, a cultura.

    O grande Outro é tudo isso mas principalmente esse “sujeito” oculto que aparece na frase, essa instância sem nome que parece tudo saber.

    O grande Outro é tudo aquilo que antecede e se conecta àquilo que torna alguém humano.

    Fazer análise possibilita se dar conta disso, desse oculto que possibilita a existência e que não precisa ser tão grande assim….E apesar de estar sempre ali…como na frase: “Dizem que…. ” com o percurso de análise pode-se deslocar esse anônimo tão onipotente e colocar um pronome assinando um dizer próprio.

    31 de março de 2026

  • O que é transferência na psicanálise?

    Transferência não é passar algo de um lugar para outro. Também não é transferir no sentido de deixar uma marca, como uma maquiagem.
    Transferência é como uma ponte sedutora. O sujeito conhece esse caminho. Aliás, foi um dos primeiros caminhos e, muitas vezes, o único, é por onde aprendeu a atravessar as relações de amor. Um caminho familiar na história do sujeito, mas desconhecido em sua própria natureza.
    Transferência é a história singular e inconsciente pela qual os outros parecem assumir, à revelia, personagens dessa história.
    É assim que o analisante vê o analista: com as cores familiares do Outro. O atraso do analista pode ser sentido como descaso, falta de amor, preferência por outro analisante, ou mesmo como um modo de testar o amor. E fora da clínica, não é assim também?
    Essa ponte, tão atraente, é um convite inconsciente à repetição.
    Na análise, trata-se de poder reconhecê-la. Não para evitá-la, mas para que o sujeito possa, pouco a pouco, perceber por onde costuma atravessar suas relações.
    O analista não está do outro lado da ponte esperando o analisante chegar, mas ao lado, sustentando o espaço em que algo dessa travessia pode ser interrogado.
    E, quem sabe, a partir daí, algo do desejo do analisante — sempre singular — possa encontrar outros caminhos.
    Porque, no fundo, é essa mesma ponte que torna possível as relações.

    14 de março de 2026

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