Transferência não é passar algo de um lugar para outro. Também não é transferir no sentido de deixar uma marca, como uma maquiagem.
Transferência é como uma ponte sedutora. O sujeito conhece esse caminho. Aliás, foi um dos primeiros caminhos e, muitas vezes, o único, é por onde aprendeu a atravessar as relações de amor. Um caminho familiar na história do sujeito, mas desconhecido em sua própria natureza.
Transferência é a história singular e inconsciente pela qual os outros parecem assumir, à revelia, personagens dessa história.
É assim que o analisante vê o analista: com as cores familiares do Outro. O atraso do analista pode ser sentido como descaso, falta de amor, preferência por outro analisante, ou mesmo como um modo de testar o amor. E fora da clínica, não é assim também?
Essa ponte, tão atraente, é um convite inconsciente à repetição.
Na análise, trata-se de poder reconhecê-la. Não para evitá-la, mas para que o sujeito possa, pouco a pouco, perceber por onde costuma atravessar suas relações.
O analista não está do outro lado da ponte esperando o analisante chegar, mas ao lado, sustentando o espaço em que algo dessa travessia pode ser interrogado.
E, quem sabe, a partir daí, algo do desejo do analisante — sempre singular — possa encontrar outros caminhos.
Porque, no fundo, é essa mesma ponte que torna possível as relações.
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